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FÍSICA
EINSTEIN NÃO É O PAI DA BOMBA ATÓMICA
Há um erro comum que consiste em julgar que Einstein é o “pai da bomba atómica”. Nada mais falso! É verdade que Einstein descobriu a equivalência entre massa e energia expressa pela célebre equação E=mc². Esta equação diz-nos que um corpo em repouso, com massa m, tem um conteúdo energético, E, que iguala o produto de m pelo quadrado do valor da velocidade da luz, c. A este valor E dá-se o nome de energia em repouso do corpo. A energia em repouso “não faz nada”. Mas a energia associada ao movimento, conhecida por energia cinética, essa sim, produz efeitos visíveis. Uma explosão tem efeitos devastadores por corresponder a um súbito aparecimento de energia cinética em grandes quantidades. Mas a energia em repouso pode transformar-se em energia cinética… e é isso que acontece na explosão de uma bomba atómica. Mas é também isso que acontece em qualquer processo que liberte energia, só que antes de Einstein este facto não era conhecido, pois antes de Einstein ninguém supunha sequer que um corpo isolado e em repouso pudesse ter energia. Mas Einstein descobriu a existência da energia em repouso e, além disso, previu que no interior do átomo poderiam existir grandes quantidades de energia em repouso apta a converter-se em energia cinética – e é certamente devido a isto que se criou a falsa ideia de Einstein ser o “pai da bomba atómica”. Ora, como já dissemos, em qualquer processo que liberte energia há este mesmo tipo de conversão. Assim, por esta ordem de ideias, Einstein seria o “pai do fogo”, o “pai da pólvora”, o “pai da dinamite”, etc. A única “contribuição” de Einstein para a bomba atómica (se assim se pode chamar) foi ter escrito uma carta a Franklin Roosevelt, Presidente dos Estados Unidos, no decorrer da 2ª Guerra Mundial, alertando-o para a importância de avançar com o projecto de produção da bomba atómica (pois era sabido que os nazis estavam a trabalhar no mesmo projecto, pelo que era imperioso ter a bomba atómica antes deles). Esta carta foi escrita a pedido de outros cientistas, que sabiam como o prestígio de Einstein podia ser decisivo junto do poder político. A carta teve o efeito pretendido, e o governo dos Estados Unidos deu luz verde ao projecto de construção da primeira bomba atómica. Este projecto foi levado a cabo por uma grande equipa de físicos, liderados por J. R. Oppenheimer. Esses, sim, foram os verdadeiros “pais da bomba atómica”.
Referências: Para uma exposição popular de grande qualidade, que conta passo a passo a história da criação da bomba atómica, e onde se fica a conhecer os seus verdadeiros "pais", ver História da Energia Nuclear, de Rómulo de Carvalho (nº 9 da Colecção Ciência para Gente Nova, Atlântida Editora, Coimbra, Portugal, 1962). Infelizmente, este livro encontra-se esgotado. Mas a questão do absurdo de chamar "pai da bomba atómica" a Einstein está magistralmente discutida em The Feynman Lectures on Physics, Vol. I, p. 16-9. (Este livro tem uma forma pouco usual de numerar as páginas: a página 16-9 é a nona página do capítulo 16.)
30 de Setembro de 2011
Fernando Henrique de Passos*
* Bacharel em Física, Licenciado e Mestre em Matemática.