INFORMÁTICA 

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

 

 

     Se a informática for usada para o progresso humano o bem-estar físico, o gosto da descoberta, o fascínio da aventura, a beleza da criação, a plenitude da realização profissional, o sentimento da solidariedade,  numa palavra, da felicidade, o mundo desta nova ciência, chamada um pouco inconsistentemente, de realidade virtual, deverá tender a aperfeiçoamentos cada vez mais significativos e profundos.

 

20/1/2008

Teresa Bernardino

 

 

_____________________

 

 

«Acredito que a globalização pode ser uma oportunidade. Mas é necessário ligar os melhores (profissionais) às melhores escolas e ao desenvolvimento da inovação»

 

Jean-Philippe Courtois (Presidente da Microsoft Internacional)

 

___________

 

 

«O humanismo está a ser profundamente abalado, por um lado, pelas biotecnologias, por outro pelas tecnologias de informação (…) O processo de globalização (sociedade de controle) tem como premissa a nossa dessingularização: somos senhas, conexões – é isso que define a nossa subjectividade»

 

José Augusto Mourão (Professor de Semiologia literária na Universidade Nova de Lisboa)

 

 

_____________

 

 

CONSTRUINDO A HARMONIA DO MUNDO?

 

 

 

O site «Harmonia do Mundo» tem o objectivo de unificar vários espaços de cultura pelo espaço virtual da WEB.

 

A cultura, vista como aquilo que tudo envolve, é a verdadeira sabedoria do mundo contemporâneo: desde a literatura, nas suas diversas vertentes, até à semiótica, à psicologia, à filosofia…

 

A ciência, como saber para fazer e como saber experimental de teorias em construção, está pronta para a batalha da luta contra a doença.

 

Em «H. do M.», a rubrica «Mundo da Criança» recebe uma atenção especial, numa sociedade que continua a não a proteger tanto como devia, através de estratégias educacionais.

 

O tema «Ensina-me a Viver» é dedicado ao templo da Deficiência Motora/Mental, também uma área social a ser desprezada por aqueles que a Saúde bafeja.

 

Outra página trata da «Teologia e da Religião», ainda a trave-mestra em que se apoia uma grande faixa da humanidade.

 

«Notícias» é a área que nos traz a esperança de uma sociedade mais dignificada. A ela, junta-se a página de notícias que nos espantam, que nos atravessam o coração como uma espada e a que chamámos «Pedra de Escândalo».

 

Ainda no site «Harmonia do Mundo», uma página direccionada para o tema da «Informática», informática que está a formar uma nova geração, a dos internautas.

 

E a informática computacional é uma «pedrada no charco», perante os meios até hoje usados pela Civilização do Livro ou Livresca (tudo é estudado a partir de um suporte de papel).

 

Esta mesma Civilização do Livro que está a entrar em declínio, ante as imagens e a escrita de uma comunicação social, que pode ter o tamanho do mundo na grande WEB virtual.

 

Neste «sem lugar» da internáutica, ergue-se uma imensidade de pensamentos que esvoaçam pelo mundo das redes computacionais, em busca de um eco, na fantasia magnífica de ser escutada e escutar.

 

«Harmonia do Mundo» em busca da harmonia de um mundo desavindo, cruel, desesperado, em busca da paz que brota da alma e não se vê, em busca de um caminho que conduz à palavra do encontro fraterno e desvia dos juízos temerários que começa a defender mais o vitimador do que a própria vítima.

 

Não queremos e, por isso, não seguimos o caminho que é percorrido pelo silêncio dos cúmplices ou pela fala dos perversos.

 

As horas para a harmonia do mundo não se podem perder com as falácias ou com as habilidades próprias daqueles que se proclamam bem-intencionados.

 

Começámos por uma pequenina partícula de harmonia internética, somos muito poucos, mas, mesmo assim, não vamos deixar de usar o instrumento que nos resta, o das redes internéticas.

 

Desde há dois meses e meio, procuramos fazer deste site um espaço virtual de verdadeira Liberdade, ou seja, um espaço de defesa das margens sociais vítimas da injustiça e do sofrimento, vítimas da humilhação de um mundo de prazeres desenfreados como o mundo do sexo, o mundo da droga, o mundo em que a venda de crianças e a sua utilização na guerra, se tornaram um dos maiores escândalos de todos os tempos, desde que a barbárie foi superada pela civilização.

 

Uma das normas deste site internético é a rejeição dos exemplos nefastos, daqueles exemplos que podem conduzir à imitação do mal. É preciso mostrar a superioridade do Bem sobre o Mal. E, para isso, não basta a exibição, jornalística ou literária, de actos maléficos, com o argumento de que denunciar chega.

 

Acreditamos que denunciar o mal só para o denunciar, não é vantajoso à sociedade humana porque não conduz necessariamente à prática do bem. Pode mesmo induzir à repetição do erro.

 

Acreditamos que a prática do bem se alcança com exemplos de agir bem. A prática do bem implica palavras e actos que indiquem a beleza do Bem, revelem a vantagem do Bem. E mostrá-lo, implica pô-lo em prática. 

 

O site «Harmonia do Mundo» continua aqui e de pé, porque vê a beleza do Bem e quer transmiti-la ao mundo.

 

12 de Setembro de 2007

Teresa Ferrer Passos*

 

* Ortónimo de Teresa Bernardino.  

 

 

__________

 

 

 

NO CIBERESPAÇO, QUE CIBERCULTURA?*

 

 

«A cultura moderna, definida pelo predomínio da tecnologia, dos interesses económicos e militares, não pode sobreviver sem uma sempre desperta imaginação crítica e utópica»

E. Subirats, Metamorfisis de la Cultura Moderna, 1991

 

 

A cultura tecnológica tem limites que negam algumas das mais importantes qualidades do ser humano, esse ser humano que a História testemunha, guarda e identifica. Trata-se de uma cultura que acorrenta, que manipula, sobretudo porque oferece estímulos cada vez mais sofisticados e, ao mesmo tempo, que seduzem os mais vulneráveis pela solidão em que a sociedade tecno-consumista os lançou desde há pelo menos duas ou três décadas. 

O olhar deixou de ser analítico, com um sentido crítico e observador. A desconfiança não parece ser uma característica da sociedade pós-moderna. Levantou-se uma atitude acrítica e crédula, demasiado crédula quanto a tudo que se recebe sem desejar, que é imposto parecendo dar liberdade de escolha. A publicidade invadiu todos os meios de comunicação social, mais dominados por máquinas electrónicas ligadas ao humano do que por pessoas identificadas com normas eticamente aprováveis. O predomínio da mentalidade relativista e minimalista criou as condições ideais para que o humano fosse cada vez menos humano e o electrónico cada vez mais humanizado.

Toda a novidade encerra uma carga benéfica, mas nada nos garante que também não venha imbuída de erros, deformantes ou minimizadores daquilo que já foi concebido. A novidade não possui nem conduz sempre a um avanço, a um progresso garantido. Mas possui sempre algo que diverge daquilo que existia antes.

O novo é o diferente. O novo pode não ser o melhor, mas pelo menos é, irrefutavelmente, a única coisa que pode ou pôde ser. Porque se assim não fosse, o novo nunca teria lugar. O novo seria impossível. A coisa nova não é imune à falha, porque ela própria antes de surgir resultou da imaginação que constrói, que cresce, que prolifera numa minoria que contesta, que rejeita o caminho seguido até então. Essa minoria opõe-se, de modo crítico primeiro, de modo utópico depois, ao status quo vigente, à afasia generalizada, à indolência geral.

Tudo o que nasce de novo resulta de uma insatisfação e de uma descrença no mundo cultural em que se vive. Assim começou de modo tímido, em 1953, com Wiener, Shannon e Turing o edifício que levaria, nos nossos dias, ao ciberespaço e à cibercultura. 

Esta revolução sem armas de guerra evoluiu para a grande Rede Internética que globaliza e torna cada vez mais vastos os universos individuais, quer no sentido do melhor, quer no sentido do pior, como o identifica o filósofo Virilio em Cibermundo, a Política do Pior.  Pessimista em relação à cultura electrónica é também Simmel ao falar de «tragédia da cultura» e ao associar a economia monetária ao poder científico-tecnológico.

Como escreveu Baudrillard, em 1997, «a Internet apenas simula um espaço mental livre, um espaço de liberdade e de descoberta (…) É-se o interrogador automático ao mesmo tempo que o respondedor automático da máquina (…) É isso o êxtase da comunicação. Não há mais o outro, em face, nem destinação final. O sistema gira assim, sem fim e sem finalidade (…)», recorda José Augusto Mourão em O Mundo e os Modos de Comunicação (pp. 207-208, Coimbra, Minerva, 2005). As vastíssimas auto-estradas da informação percorridas no mundializado espaço electrónico que está, cada vez mais ao alcance de todos, é o tema geral em que se divide esta sua curiosa intervenção ensaística no cibermundo internético.

O Mundo e os Modos de Comunicação é um livro sapiencial, que prende a atenção e nos dá uma visão muito rigorosa da problemática do universo tecnológico a que, desde a infância, somos progressivamente obrigados a obedecer, sob pena de nos isolarmos do mundo humano, esse humano em busca de uma máquina para sobreviver por já não saber viver com os outros, ou porque as cidades são, cada vez mais, monstros sem alma, sem encontro, sem descoberta da felicidade. «Um obscuro ambiente de fim de mundo envenena o ar. Neste ambiente o corpo tornou-se um obstáculo à comunicação» escreve José Augusto Mourão (p.10).

No corpo visível é preciso construir pontes que iludam a sua visibilidade. A visibilidade tornou-se um domínio do preciosismo ilusório e trágico. A carne desencarna-se como se fosse necessária a morte do vivo, com toda a sua dinâmica adulterada e fria. Crescem virtuais linhas de escândalo na cidade frenética do virtual e de um fantasmagórico em que a maravilha se transforma num ecrã de luz intensa e com  um som penetrante a escapar-se volátil e esquelético, sem poesia, sem discurso de verdade onde se esconde todo o conteúdo. Por isso, o autor de O Mundo e os Modos de Comunicação insiste na ideia de que «a imagem do corpo entrou em crise» (p.12).

Estamos frente ao «homem electrónico [que] não tem essência carnal. O corpo pós-humano é uma tecnologia, um ecrã, uma imagem projectada» (p.15). O humano adquire uma dimensão que o ultrapassa através dos meios de comunicação em que a tecnologia não disfarça a sua caricatura do mundo. A máscara afivela-se sem que o tempo se aperceba que tudo está ao serviço da mudança impenitente e ainda cheia de enigmas, a adensarem-se e fulminando tudo quanto pertencia a um real contemporizador com as horas de um tempo ainda não muito distante, as horas longas e férteis para aqueles espíritos habituados a serem essencialmente livres, plenos de autonomia e a arbitrar as decisões em que a democracia desempenhava uma função desinibidora e actuante.

Estamos perante um livro que nos provoca, nos faz pensar. E, nos arrepia quando o autor diz que «as redes dos computadores põem simplesmente entre parêntesis a presença física dos participantes» (p.15). O Mundo e os Modos de Comunicação é, afinal, e apesar de o autor não se enquadrar nos adeptos das grandes auto-estradas electrónicas, uma grande auto-estrada da angústia humana ante a perda previsível e irremediável de caminhos mais à medida humana, mais à escala das emoções e dos comportamentos de risco, aventura e sonho.

Questões em aberto são postas de modo incisivo e pragmático.  É preciso alertar aqueles que ainda lêem para questões discutíveis e de labirínticas teias de pensamentos tanto recentes com antigos, tanto do mundo do romance como do mundo da poesia ou do ensaísmo. Áreas tão estranhas como a teologia, a ciência ou a tecnologia parecem imbricar-se, como se fossem temáticas familiares umas às outras, mas também surgem como se fossem campos fechados, que não se pudessem transpor, como se fossem compartimentos estranhos e alienados da realidade.

Tudo se encaixa num já vastíssimo ciberespaço a estender os seus tentáculos que avançam a uma velocidade impensável e a tender para o infinito, o incorporal, o fim das coisas e o império das imagens que ninguém conhece e que se volatilizam como se fossem um fumo rápido ou como se fossem um vento que não deixa rasto.

Quando José Augusto Mourão escreve que «o ciberespaço significa a morte dos objectos reais» (p.208) ou que «a idolatria moderna está aí: na sobreavaliação de Imagens que substituem as coisas» (p.212) ou ainda que «o sujeito da vivência virtual é desprovido de corpo» (p.212), tudo se torna mais claro e evidente. A realidade natural é posta em causa pelo ciberespaço. O sujeito humano perde a sua estrutura e integridade ética. O virtual transforma a frescura e a transparência de cada coisa num simulacro que respeita à imagem, sem vida natural, sem autenticidade.

No mundo virtual há uma aparência dominante. O real deixa de ter a virtude de o ser. Num real de novas dimensões espaciais tudo cresce como num esquema labiríntico e, ao mesmo tempo lógico, mas em que a emoção é um estado deformado, «light», exclusivista e com os contornos do deprimente ou com a atitude do consentimento, mesmo do aberrante. Como acentua José Augusto Mourão, «a técnica está a mudar a nossa percepção do mundo. O nosso verdadeiro lugar é o possível. A realidade é apenas uma das variações do possível» (p.81).

Numa abrangência quase a atingir o quadro de paredes virtuais que nunca cortam o caminho, o ciberespaço é um baluarte das novas correntes materialistas/minimalistas. É ele que dá expansão às suas teses, que eleva a ideia de que tudo vale sem diferenças e tudo começa a ser avaliado como se cada valor tivesse o mesmo grau de legitimidade no contexto humano. O mundo dos valores cristãos ocidentais está a ruir perante a onda avassaladora do princípio do prazer como o valor máximo e o único indiscutível nesta sociedade do consumo e da informação sem freios.

Ao admitir-se e ao aceitar-se a legitimidade de todos os valores individualmente considerados, deixa de haver espaço para valores universais, para a distinção entre bem e mal, entre justo e injusto, entre válido e inválido. A civilização ocidental, ao condescender com os novos valores de uma moda implacável, confrangedora e redundante deixa sossobrar os valores intemporais da realidade humana. De facto, diz Mourão, «o processo de multiplicação infinita de informação, o desaparecimento dos centros, o apagamento progressivo das figuras de poder, dá lugar a uma ilusão de liberdade e de autonomia (…). O ciberespaço não é a abolição das fronteiras nem das muralhas da cidade, mas sim a invisibilidade de fronteiras e muralhas, de valores e de poderes» (p.210).

A ambiguidade, as ambivalências, o anonimato, as tutelas do poder de lobbies poderosos, a cultura encapotada por interesses obscuros, os proteccionismos financeiros de redes incontroláveis dentro da rede internética do ciberespaço, conduziram filósofos como, Baudrillard, E. Subirats, Fiorese, P.Virilio, G. Simmel ou Serres, entre outros, a colocar-se numa posição de desconfiança e crítica das novas tecnologias da informação. Citando-os ao longo de O Mundo e os Meios de Comunicação, J. A. Mourão trata esta temática com o rigor que exigem os estranhos rumos das vastíssimas auto-estradas cibernéticas em construção há poucos anos e já com tão inesperado êxito junto das sociedades ávidas de um «admirável mundo novo». A urgência de encontrar uma saída para a angústia em que a informação e o consumismo as tem mergulhado, vulnerabiliza-as e fá-las presa fácil da avidez incontida e prepotente. A sociedade, após duas violentas guerras mundiais, ficou fragilizada.

À mercê dos «deuses» de uma tecnologia desencarnada que a levou à veneração, como um verdadeiro mito, do lazer, deixou-se conduzir a um lazer fictício, repleto de imagens sedutoras como a velocidade, as fantasias imagéticas, os robotizados planos de repouso, a idolatria do corpo que não salvaguarda o lugar da carne física, separada do corpo se torna absurda.

No mundo dos cyborgs, dos bits, dos freaks, dos híbridos, dos blogs, dos links, dos hipertextos, há pouco lugar para um corpo em movimento, pronto à aventura, ao sonho, à palavra que permanece, à amizade que não se reduz a um e-mail, ao amor que não se compadece com sexo à margem da comunhão e da fidelidade. Crescimento, globalização, abolição das diferenças na real desigualdade, são chavões que deturpam todos os sentidos úteis da informatização social. Às massas, incapazes de se aperceberem das assustadoras mudanças económicas e políticas das comunidades globalizantes, só resta obedecer cegamente, submeter-se ao todo e deixar-se iludir conforme os padrões dos novos tempos. 

Em O Mundo e os Meios de Comunicação, José Augusto Mourão oferece-nos uma visão que não deve ser omitida, esquecida ou desprezada pelos meios de comunicação. Aqui se encontram afirmações a alimentar a polémica que a nova ciber-cultura deveria escutar para não ser alvo de tantas limitações quando diz ter como fio condutor os grandes espaços da liberdade.

Como escreve o autor deste valioso ensaio semiótico, «com o colapso da realidade vs ficção, também a dualidade cartesiana espírito/corpo é eclipsada pelo conceito de «cyborg» que mina o conceito de «humano».(…). Se as fronteiras entre humano e artificial colapsam, todas as outras realidades se dissolvem também e as suas partes tornam-se ininteligíveis, como prevê Donna Haraday no seu “Manifest for Cyborg”» (p.15). E mais adiante: «Nunca fomos tão frequentados por monstros. Estão aí a “nova carne”, o cyborg, o pós-humano» (p.18).

Ler esta obra é receber um sinal de alerta sobre o ciberespaço. Não o deixemos passar ao nosso lado.

 

S. Brás de Alportel

18/1/2006

Teresa Ferrer Passos**

 

** Também assina pelo ortónimo Teresa Bernardino.

 

* Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de Janeiro (13/3/2006); Internet, www.triplov.com (17/1/2006);Internet, www.harmoniadomundo.net (1/9/2007) 

 

 

__________

 

 

 

A CULTURA E A INTERNÁUTICA GERAÇÃO CONTEMPORÂNEA*

 

 

 

As grandes editoras vivem à custa de livros cuja linguagem é simplista e pouco deve á imaginação. A literatura tornou-se um entretenimento, um «hobby», em que as temáticas abordadas são mais importantes do que a arte com que se transmitem as ideias. As técnicas literárias perderam a qualidade que era apanágio do escritor. Afinal, quem se preocupa com elas? Esqueceu-se a importância da estética em relação ao conteúdo. Quando os críticos literários abordam os livros mais vendidos, só constitui motivo dos seus artigos (Folhas literárias de jornais, de revistas, etc.), por vezes bastante longos, a temática sobre a qual o autor se debruça. 

O que é importante, parece sê-lo cada vez mais, para a sociedade contemporânea, são os assuntos sobre os quais a narrativa se desenvolve até à exaustão, ao longo de muitas centenas de páginas. São vulgares os livros com quatrocentas, quinhentas ou seiscentas páginas. Também nas entrevistas aos autores, estes são confrontados com perguntas sobre questões exclusivamente respeitantes aos motivos ideológicos, pessoais ou sociais dos seus romances. A arte é uma anti-arte, cada vez mais acentuadamente. 

O novo mundo aberto com a rede internética tem potencialidades que podem provocar o colapso da indústria livreira e de todo este flagelante universo literário. O ciberespaço é um «não lugar» em que todos os lugares podem surgir em simulações de novos espaços. A literatura, a ciência, a cultura em geral, descobriram que podem dialogar sem um lugar definido. Está a entrar em colapso a área demasiado restrita, que é a sede da editora. Esta é, não raras vezes, também um armazém de livros amontoados, à espera de um distribuidor que, às vezes, nunca vem, ou vem para deixar os livros em outros depósitos, os depósitos dos shoppings ou das livrarias das cidades.

A livraria é um lugar em que só os autores que têm um pesado marketing (cobertura) jornalístico têm espaço para entrar, e, em primeiro lugar, na montra. A confusão nos placares deixa o visitante/leitor numa angústia de escolha. Esta angústia é decorrente do facto de só saber o que deve comprar a partir do que dizem os críticos dos jornais ou revistas de larga difusão. Sem esses críticos que seria do leitor perante a panóplia de dezenas e dezenas de romances, desde os de autores estrangeiros aos nacionais? 

Um portal internético com os seus links é acima de tudo um excelente «não lugar» porque está cheio de espaços novos, sem fronteiras, com resumos de obras editadas, sem restrições de gostos ou de interesses político-ideológicos. Os lançamentos em livrarias conduzem a gastos inconcebíveis com cartões enviados pessoalmente pelo correio (amigos, correligionários políticos, familiares, etc.). Depois as vendas são irrisórias porque na maior parte dos casos as pessoas presentes já receberam exemplares oferecidos pelo autor ou esperam vir a recebê-los. Mas o mais importante são os cocktails oferecidos pelo editor que nunca é compensado pelo número de exemplares vendidos aos convidados. Outras vezes, são salas de livrarias vazias ou anfiteatros de Universidades ou de Centros Comerciais, com lugares que ninguém ocupa. 

As editoras que publicam apenas em suporte de papel, dentro de algumas décadas, não terão público leitor, a não ser a preços exorbitantes. O declínio da impressão em papel está à vista. O negócio editorial que se fundamenta na exploração do autor pelo grande editor, pelas grandes distribuidoras e pelas livrarias das grandes superfícies, está a caminho de futuras falências. Para adiar a falência, as grandes editoras esforçam-se por publicar obras menores (conteúdo e estética literária), mas com os ingredientes indispensáveis à sua massificada comercialização (por exemplo, espessos volumes com capas graficamente aliciantes). Muitas livrarias já fecharam, outras sobrevivem só graças aos livros ditos best-sellers, sempre êxitos comerciais. Até os grandes editores que nunca tiveram pejo em enriquecer à custa dos autores, oferecem-lhes pelas suas obras uns 8 a 10% ou menos, sobre o preço de capa no momento do lançamento das obras. É o caso de Publicações Europa-América que chegam a pagar ao autor, ao fim de décadas de comercialização actualizada do preço do livro, 10% sobre o preço já irrisório com que o livro foi posto à venda no primeiro ano de publicação. 

Os pequenos editores recorrem aos Apoios Financeiros de Empresas mecenas ou a Câmaras Municipais, a quem os autores os solicitam, se eles próprios não têm possibilidade de o fazer. Quanto à distribuição das suas publicações encontram grandes entraves porque as distribuidoras só aceitam fazer um contrato, se o volume de obras for de milhares. Por outro lado, onde o livro ainda é relativamente bem vendido é nas grandes superfícies e nos Centros Comerciais das cidades de Lisboa, Porto e Coimbra. Mas aí só entram as obras, na maioria dos casos, de menor qualidade ou as de autores já muito conhecidos. O livro impresso tem os dias contados. Cada vez há menos pessoas a comprarem livros e menos ainda a lê-los. Tendem a tornar-se objectos decorativos de prateleiras ao lado de outros objectos decorativos. 

Estamos numa época semelhante ao século XV em que o livro impresso retirou das bibliotecas o livro manuscrito. O livro manuscrito ficava caríssimo em relação ao livro impresso. Se o livro impresso tornou o livro acessível a um número de pessoas cada vez maior, o livro electrónico também se tornará quase gratuito para os leitores e estes só adquirem o livro impresso se o desejarem. Uma revolução cultural está em curso com o alargamento do uso do computador pessoal e a Internet a um número cada vez maior de internautas (milhares de leitores tornar-se-ão milhões). 

No «não lugar» da Internet a palavra ganha as dimensões do planeta. A leitura dos jovens está a virar-se, de modo acelerado, para o ecrã computacional. Nem já a televisão ou o cinema colhem as antigas plateias de espectadores, a não ser aqueles que já ultrapassam a idade madura. A juventude aderiu em massas cada vez mais significativas à WEB. Os sites são visionados por públicos com uma diversificação ideológica impressionante. 

Estamos a entrar numa civilização computacional que avassalará todos os anteriores instrumentos da escrita, até os substituir completamente. A imagem impera porque a imagem virtual seduz uma sociedade que nunca suspeitara da sua existência. O ecrã computacional oferece um manancial de respostas incalculáveis, nunca imaginado na História da sociedade humana. Cada vez mais a compra de livros em suporte de papel se torna uma atitude de intelectuais. 

A facilidade com que se circula na Internet permite que tanto se possa consultar uma enciclopédia, um dicionário, um artigo, um romance, um conto ou um livro de poemas. Quem tem maior poder de compra pode adquirir um livro impresso em papel por via da Internet e recebê-lo poucos dias depois na sua casa. Aqueles que não têm tempo para folhear os livros nas livrarias, podem também ter acesso rápido à leitura, sempre que em casa tenham uns momentos de descanso. Folhear os livros torna-se possível num site cultural (ciência, literatura, teologia, tecnologia, filosofia, etc.), se o dis­ponibilizarmos nessas espantosas imagens computacionais, a qualquer momento on-line. A civilização computacional está aí. 

Estamos a construir um portal internético e editor chamado «Harmonia do Mundo». Destina-se àqueles que desejam navegar nos grandes espaços virtuais da Internet com o objectivo de ter acesso e colaborar na elevação da cultura universal, nas vertentes mais altas da dignidade humana, ou seja, inspirando-se nos valores do cristianismo, que construiu a civilização europeia a que pertencemos.

 

Teresa Ferrer Passos**

 

** Também assina pelo ortónimo Teresa Bernardino

 

O Primeiro de Janeiro (23/4/2007); Notícias de S. Braz (Março/Abril 2007); Internet, www.triplov.com (5/5/2007);Internet, www.harmoniadomundo.net (2/9/2007)

 

 

___________________________________

 

 

A UTOPIA DE SÓCRATES
 

 

Dizem que Sócrates não gostava de livros. O filósofo grego resmungava que, por culpa dessas novas tecnologias, crias diretas da equivocada invenção do alfabeto, os jovens deixariam de usar a memória, entregariam esta responsabilidade a caracteres inanimados e nunca mais seriam capazes de evocar o conhecimento por si próprios. Assim, Sócrates parecia temer o objeto livro. Ele preferia confiar no conhecimento virtual dos confins do espírito. Tanto foi assim que nunca deixou nada escrito. Tudo que sabemos dele vem do relato de seus discípulos Platão e Xenofonte.

 

No decorrer dos séculos, o artefato livro inspirou um fascínio assustador no imaginário popular. Mesmo quando ainda não tinham o formato pelo qual hoje o conhecemos, esses objetos passaram a ser intimamente temidos e admirados como os sumos portadores dos mistérios profundos do mundo. Rolos e códices de pergaminhos sagrados, manuscritos com fórmulas proibidas da alquimia, tábuas ancestrais de argila ou terracota e suas revelações dos mais baixos segredos do homem e do universo eram meticulosamente soterrados em porões de mosteiros. Pouquíssimos sacerdotes tinham acesso a esses registros. Durante séculos, incunábulos amaldiçoados no Index Librorum Proibitorum foram aniquilados e queimados, às vezes junto com os autores e leitores. (...)

 

Efetivando a utopia simbiótica de McLuhan, essa biotecnologia faria os textos fluírem não para uma superfície de um objeto exterior, mas diretamente para o pensamento. Como em uma alucinação transcendental, de olhos fechados, repousados em uma velha poltrona no jardim, deixaríamos as células do corpo deliciarem-se na fagocitose das texturas de narrativas tridimensionais e mergulharíamos nas experiências exponenciais das articulações do texto em toda a sua plenitude.

 

A partir desse novo paradigma no conceito de memória, em um atrevimento insolente, poderíamos sugerir que desta vez estaria sendo levado a efeito a utopia de Sócrates. Com a extensão de nosso sistema nervoso em rede, poderemos finalmente, em tributo ao desejo do filósofo, ler o conhecimento não através de um suporte físico, mas virtualizado nos recantos do próprio espírito.*

 

* Estes excertos foram retirados do artigo de André Azevedo da Fonseca, a partir da versão desenvolvida no ensaio «A Utopia de Sócrates» que conquistou o 1º lugar no 6º Prémio Literário Escritor Universitário "Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde)", promovido pela Academia Brasileira de Letras (ABL), Centro de Integração Empresa Escola (CIEE), em 2004. A «Harmonia do Mundo» recebeu este artigo através da internauta Hanah / Raquel de Nascimento.

 

 

 

[ Página Principal ]

Blogue em 4x4 ] Ciências ] Ensina-me a Viver ] Filosofia ] Literatura ] Mundo da Criança ] Notícias e Opinião ] Poesia ] Teologia ]