BIOLOGIA

 

BIOLOGIA E LITERATURA

 

CARLOS FIOLHAIS

 

Pouca gente sabe que o escritor moçambicano Mia Couto é biólogo (e há muita gente que não sabe que, apesar do nome, Mia, trata-se de um escritor e não de uma escritora).

Pois foi essa dupla qualidade de escritor e de biólogo que lhe valeu o chamamento pelo biólogo Amadeu Soares, da Universidade de Aveiro, em 2006, para falar nos encontros “Biologias na Noite”, encontros abertos realizados, como o próprio nome indica, em horário nocturno no Centro Cultural e de Congressos da Câmara Municipal de Aveiro (antiga fábrica de cerâmica).

Mia Couto não podia deixar de fazer uma intervenção que cruzava a biologia com a literatura, a ciência com a arte. O seu belo texto encontra-se desde há pouco à disposição de todos como capítulo 1 do livro “Biologias na Noite”, que é o número 2 da colecção “Biologicando”, das Edições Afrontamento do Porto (em colaboração com o Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro).

Há quem diga que há duas culturas, como duas margens do mesmo rio separadas por uma corrente difícil de passar. Mia Couto vem-nos dizer que há, afinal, apenas um rio. O seu escrito intitula-se “Mitos e pecados de uma indisciplina científica” e subintitula-se “Rios, cobras e camisas de dormir”.

Lá está: o rio aparece destacado. Conclui ele, depois de aduzir argumentos tanto científicos como literários: “Afinal, a ciência e a arte são como margens de um mesmo rio. A Biologia não é diurna nem nocturna se não se assumir como autora de uma espantosa narração que é o relato da Evolução da Vida.

Podem ter a certeza que essa é uma história tão extraordinária que só pode ser escrita juntando o rigor da ciência ao fulgor da arte. (...) Poesia e ciência são entidades que não se podem confundir; mas elas podem e devem deitar-se na mesma cama. E quando o fizerem espero bem que dispam as velhas camisas de dormir”.

Está explicada agora, tanto como o “rio”, a “camisa de dormir” do subtítulo. Esclarece o escritor (ou o cientista?) que essas camisas são uma espécie de fóssil de tempos idos: “[No Renascimento] os casais estavam proibidos de dormir nus. As camisas de noite que ainda hoje conhecemos não são apenas uma peça de vestuário.

São também uma herança das cruzadas puritanas contra os pecados do corpo e da paixão”.

Só falta explicar as “cobras” do surpreendente subtítulo (por mim acho-o tão interessante que teria trocado o título com o subtítulo: pois só um escritor poderia associar rios, cobras e camisas de dormir).

As cobras, ou melhor, uma cobra aparece numa divertida mas verídica história moçambicana, do Dondo (perto da Beira, terra natal do escritor), que o autor contou oralmente à audiência da noite aveirense e agora em livro a todos nós. Constou que havia uma cobra, uma perigosa mamba preta, escondida no edifício da Administração do Domdo. Falava-se em vítimas.

E constava que a cobra cantava o hino nacional moçambicano, mantendo toda a gente em patriótico respeito. Uma coisa fantástica, digna das melhores páginas do Gabriel Garcia Marquez. Até que foi chamado um cientista que explicou ao povo o que era uma mamba preta, de acordo com os mais modernos ensinamentos da biologia. Que ela não era tão perigosa assim. E que não podia cantar o hino etc., etc.

No final da prelecção, as pessoas agradeceram ao biólogo: “Gostámos muito do que nos mostrou, só é pena que não tenha falado desta cobra”. Resposta pronta: “Como não falei? Então não falei da mamba negra?”. Réplica do outro lado: “Falou sim, mas não é esta”. Depois de instalada a confusão, o biólogo pediu um esclarecimento derradeiro: “Digam-me só uma coisa: isto que têm aqui é realmente uma cobra?”. Resposta final: “Quase é, doutor”.

Mia Couto pega nesta fantástica história e diz que quase é escritor e que quase é biólogo. Porque, tal como nos mitos africanos, as coisas para ele não têm necessariamente de ser ou não ser. O dia não está completamente separado da noite. A biologia não está apartada da literatura. E aduz:

“A verdade é que para mim não existe conflito. Pelo contrário, hoje não sei como poderia ser escritor caso eu não fosse biólogo. E vice-versa.

Nenhuma das actividades me basta. O que alimenta é o diálogo, a intersecção entre os dois saberes. O que me dá prazer é percorrer como um equilibrista essa linha de fronteira entre pensamento e sensibilidade, entre inteligência e intuição, entre poesia e saber científico”(…)».

 

* Excerto do artigo «Biologia e Literatura» de Carlos Fiolhais, Suplemento «das Artes das Letras» in O Primeiro de Janeiro (18 de Junho de 2007).

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TOPOBIOLOGIA:

AS LIÇÕES DO EMBRIÃO*

 

GERARD M. EDELMAN

 

 

"A Galinha e o Ovo, Enfim Juntos"

Título de um artigo da revista Topobiology,

New York Times Book Review, 22 de Janeiro de 1989

 

 

«(...)Pode parecer estranho ocuparmo-nos com a embriologia, quando o assunto deste livro é o espírito. Os óvulos e os espermatozóides não dão mostras de possuir um espírito e os embriões muito precoces também não. Porém, como sabemos que, pelo contrário, os recém-nascidos demonstram possuir, conquanto débil, parece ser razoável que nos interroguemos sobre quais as interacções que estabelecem a bases para a existência de vida mental.

(...)As células enviam grande quantidade de prolongamentos que, por vezes, se reunem em grupos chamados feixes. Ao atingirem outros territórios e camadas, elas vão estimular as células alvo. Estas, por sua vez, libertam substâncias ou sinais difusíveis que, caso os prolongamentos em expansão possuam sinais correlativos lhes permitirão ramificar-se e estabelecer ligações. Os que não o fazem ou continuam ou retraem-se. De facto, se não atingirem os seus alvos, as suas células-mãe podem morrer. Por fim, à medida que o crescimento e selecção operam, pode formar-se um mapa neuronal, dotado de uma função. O número de células que estão constantemente a ser produzidas, a morrer e a ser integradas é enorme. A situação é inteiramente dinâmica, estando dependente de mensagens, genes, proteínas, movimento celular, divisão e morte, os quais interagem em muitos níveis.

Reparece-se nos aspectos principais deste cenário. É topobiológico ou dependente do local. Os acontecimentos que ocorrem num local exigem que, noutros locais, tenham ocorrido previamente outros acontecimentos. No entanto, é também intrinsecamente dinâmico, plástico ou variável ao nível das suas unidades fundamentais que são as células. Mesmo em gémeos geneticamente idênticos, não é possível encontrar, com a mesma localização e ao mesmo tempo, exactamente o mesmo padrão de células nervosas. Apesar disso, a imagem colectiva é específica da espécie, uma vez que os condicionamentos globais que comandam a acção do genes são característicos dessa espécie.

Os acontecimentos que descrevi são de tipo selectivo. Certos padrões celulares são seleccionados de forma topobiológica de entre uma massa de células em mudança. É o que se passa, de forma exuberante com o sistema nervoso. A selecção não só garante um padrão comum à espécie como, ao nível das redes neuronais mais finas, resulta também em diversidade individual. Já atrás mencionei que a diversidade ou variabilidade das ligações num dado local do sistema nervoso constitui um argumento contra a ideia de que o cérebro funciona como um computador. A diversidade deve forçosamente resultar da natureza dinâmica dos acontecimentos topobiológicos. A existência de diversidade ao nível do animal individual é de grande importância. É até provável que seja uma das características mais importantes da morfologia que dá origem ao espírito (...)»* 

 

* Gerald M. Edelman, Biologia da Consciência, Instituto Piaget, Lisboa, 1995 (1ª ed. inglesa, 1992), págs. 83, 99, 100.

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«A AUDÁCIA DE DARWIN»

 

MARCEL BLANC

 

 

«(...) Charles Darwin (18O9-1882) tinha chegado à noção de evolução das espécies com base na observação de fósseis mas também, e sobretudo, da distribuição geográfica de certas espécies animais, observações realizadas durante a sua viagem à volta do mundo (entre 1831 e 1836). Também ele pôs a hipótese da evolução para resolver um problema particular suscitado pelas observações; mas estas eram relativas à bio-geográfica (distribuição geográfica das espécies) e não aos fósseis, como no caso Lamarck.

O facto assinala uma vez mais que a noção de evolução não é directamente observável, mas deduzida; é uma construção do espírito para dar conta de certos factos. Do mesmo modo, primeiro Copérnico, depois Galileu, foram levados a "construir" uma representação do mundo em que a Terra girava em torno do Sol para melhor explicarem certas observações do movimento dos astros.

Para bem compreender como é que Darwin veio a avançar a hipótese da evolução das espécies há que tentar imaginar o tipo de problemas que poderiam colocar-se-lhe quando tentou, em 1837, pôr em ordem as observações trazidas da sua viagem à volta do mundo. Como todos os biólogos dos anos de 1830, não tendo Lamarck tido até então eco, ele acreditava na fixidez das espécies, mesmo tendo de imaginar que elas teriam sido criadas a seguir a cada ciclo de catástrofe geológica. A bordo do Beagle, o navio no qual, a expensas da Universidade de Cambridge, tinha embarcado para uma missão científica, leu os Princípios de Geologia do geólogo britânico mais influente da época, Charles Lyell.

Este tinha ido dar precisamente ao problema de Lamarck, o problema filosófico e científico suscitado pelas extinções de espécies atestadas pelos fósseis. Mas, contrariamente ao zoólogo francês, pensava que as espécies eram fixas e não podiam por isso adaptar-se mudando de forma (...)»*

 

* Marcel Blanc, Os Herdeiros de Darwin, Editorial Teorema, 1991 (1ª edição francesa, 1990), págs. 23-24.

 

 

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