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O site Harmonia do Mundo irá acabar em breve. Será substituído pelo blogue Harmonia do Mundo, já em fase experimental.
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PAPA JOÃO PAULO II (KAROL WOJTYLA)
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«Não declarara Ela, desde o princípio: "Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra"? (Lc 1, 38). Maria continuava, pois, mediante a fé, a ouvir e a meditar aquela palavra, na qual se tornava cada vez mais transparente, de um modo "que excede todo o conhecimento" (Ef 3, 19), a auto-revelação de Deus vivo. E assim, Maria Mãe tornava-se, em certo sentido, a primeira "discípula" do seu Filho, a primeira a quem Ele parecia dizer: "Segue-me", mesmo antes de dirigir este chamamento aos Apóstolos ou a quaisquer outros (cf. Jo 1, 43).»
Papa João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris Mater, Edições Paulistas, 1987, p. 47.
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«Jesus tomava posição contra a interpretação da palavra de Deus e da tradição do Povo eleito, interpretação totalmente errada e falsificada pelos fariseus e saduceus. Ele opunha-se a tudo o que não correspondia à verdade primordial e fundamental da palavra. Opunha-se a tudo o que, por causa da mesquinhez humana, deformava a lei e o maior mandamento, isto é, a lei do Amor. Opunha-se não só com a palavra mas também com as obras.»
Karol Wojtyla, Sinal de Contradição, Edições Paulinas, S. Paulo, 1979, p.109.
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«O amor é a fonte que alimenta e o clima em que se cresce»
João Paulo II
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Singela Homenagem a KAROL WOJTYLA,
O PAPA JOÃO PAULO II
(Por ocasião da sua beatificação,
seis anos após a sua morte)
*
O DESAFIO E A CORAGEM ENTRELAÇADAS
em três antigos textos assinados por Teresa Ferrer Passos
1º – MEMÓRIA DE SOFRIMENTO*
Vibram ainda no nosso coração os débeis e enrouquecidos sons da voz suave e cheia de afabilidade do Papa João Paulo II, Mestre da palavra que semeia e do acto que a torna fértil. No dia 2 de Abril de 2005, deixou de nos acompanhar essa grande figura do mundo dos vivos. E todos perdemos, de certa maneira, a figura da comunicação social planetária que tanto se assemelhava a uma referência paterna, pelo afecto que sabia transmitir a todos aqueles que o seu olhar tocava.
Ao longo de oitenta e quatro anos, foi o Homem que esteve sempre pronto para defrontar o trabalho, quer fosse o árduo trabalho nas minas, quer o irreverente e actuante teatro, quer a obscura pedagogia da Ética na universidade ou o honroso cargo de bispo de Cracóvia.
Recebeu sempre aquilo que lhe ofereciam, como se o gosto de servir fosse um fogo intenso a abrasá-lo. Cada actividade parecia-lhe uma escolha dessa Providência que o encaminhava num silêncio invocador ou numa intervenção apagada, para deixar soltar a luz da sua vontade férrea.
Ao participar no Conclave, após a morte do Papa João Paulo I, Karol Wojtyla, agora já cardeal de Cracóvia diria, em tom amistoso, a um repórter fotográfico da revista Time: «a mim não, não vale a pena!».
Ele vinha da Polónia - um país mártir que vivera o pesadelo das armas nazis, que continuava a viver o do comunismo, essa pátria que era um símbolo de sofrimento e de contradição política, essa pátria em que havia um ambiente de rejeição a tudo o que tivesse a marca do religioso -, não era minimamente provável que a escolha recaísse nele... Assim pensava Carol Wojtyla, que vivera uma infância cortada pela crueza da morte da mãe aos nove anos, do irmão aos catorze e do pai aos vinte e um.
Nesses trágicos anos, a consciência de que a vida é um mistério indecifrável crescera. Então, achava que havia de encontrar alguma explicação para tanta adversidade, tanta impiedade, tanto sofrimento. Que sentidos a encontrar na vida humana? Que caminhos inóspitos e desconhecidos a crivavam de assombrosos males? A sua família, uma família feliz, desmoronara-se em poucos anos, como se algo tivesse de acontecer, como se ele devesse estar preparado para o imprevisto, como se uma direcção estivesse a ser dada aos seus passos, ainda tão inseguros.
A consciência dessa realidade levou-o ao estudo da filosofia, especialmente ao estudo de uma das suas áreas: a Ética. Fará o Doutoramento em Ética para compreender o Homem e em Teologia, para continuar a interrogar Deus.
Entre a Ética e a Teologia, sabe observar as montanhas cobertas de gelo, escuta o vento brando na Primavera e deixa-se fustigar pelos seus uivos nos dias de tempestade. Caminha, quase sem perceber que o sentido da cruz ensinado pela mãe ausente, e sempre viva na sua memória, crescia na sua alma. Uma cruz, à beira de a receber da própria Providência e numa hora inesperada.
Contra todas as expectativas, é aclamado Papa. Cognomina-se João Paulo II. E, mais uma vez, está pronto a exercer a tarefa mais difícil da sua vida: servir esse Deus, feito Cristo Crucificado, esse Deus, sinal de contradição.
Estava preparado pelo estudo para conhecer a verdadeira dimensão e o significado da vida humana, das suas vicissitudes e dos seus condicionalismos. A vida mostrara ao menino acarinhado e cheio de ternura, que tudo alcança maior sentido se o sofrimento se fizer sentir. O sofrimento. Ele conhece o seu sentido como poucos.
Já eleito Papa, não quer abandonar os seus diálogos com a natureza e com os jovens, talvez a recordar os seus alunos da universidade. Subia às altas montanhas com eles e com eles praticava desportos. Sente agora de modo mais significante a força que eles lhe tinham oferecido. Que ensinamentos recebera desses convívios! E não queria perder essa fonte de vida, aventura e coragem! Privilegia o contacto directo com as multidões. Mas dirige-se especialmente aos jovens de todos os lugares do mundo que visita. E a sua alma aquece pela alegria que transmitem!
Agora, pode ganhar um sentido outro e bem maior, mais fundo, mais autêntico. A Pastoral da Cruz do Cristo a sangrar de dor difunde-a por todos os continentes da Terra. Com que ardor leva esse Cristo tombado na cruz e, ao mesmo tempo, de braços abertos para a humanidade, esse Cristo indiferente aos pregos que a essa mesma cruz o prendem. Esse Cristo que na sua agonia de fim, ainda escolhe uma Mãe para todos, a Sua própria Mãe!
A ocupar o lugar de Jesus Cristo a partir da cidade de Roma, João Paulo II quer, acima de tudo, seguir uma ética do testemunho, presente em S. Pedro, e uma ética da divulgação da mensagem até aos confins do mundo, presente no caso de S. Paulo.
É preciso transmitir a toda a gente a Boa Nova: Jesus Cristo é o Salvador e quem é fiel às Suas Palavras, quem acredita n’Ele, Viverá! Dizer isto por todos os países do mundo, eis o seu projecto! Em cada lugar, junto de cada pessoa, João Paulo II usou a tecnologia mais moderna para difundir a Palavra que Cristo ensinara.
Mas, para além da ética de Pedro ou de Paulo, a ética da perseverança é o lema de Karol Wojtyla. Perante os obstáculos, é preciso levar a Esperança aos desesperados, a Piedade àqueles que erram, a Justiça até aos humilhados!
Indiferente aos perigos constantes defrontados nas suas viagens missionárias, não abdica da luta, nunca abdicará. Deus entregara-lhe o Caminho mais exigente e também o mais alto!
Evangelizar, mesmo que o caminho esteja coberto de espinhos e sangue e suplício, impõe-se-lhe. Vítima de dois atentados quase fatais, escapa ileso de muitos outros preparados pelos seus adversários. Mas, não fora uma Cruz que Jesus transportara, Ele, o próprio Filho de Deus? E Paulo, um dos seus perseguidores maiores, não se fizera o seu maior defensor e não sofrera os insultos, as prisões e a tortura em nome d’ Aquele que antes perseguira?
Nunca houvera um Papa de nacionalidade polaca e ele era um polaco. Imprevistamente, acontecera! Os riscos que corria faziam perigar, em cada viagem, a sua integridade física, mas desistir era atraiçoar a ética que perfilhava. Por isso, só podia ser um Papa sem medo, peregrinando pelo vasto mundo, incansável, arrojado até ao limite das suas forças.
Entre os atentados e a doença degenerativa que o atinge, prossegue o rumo traçado. Continua a peregrinar pelo mundo. Já sem força nas pernas para andar, já com a voz a falhar pela falta dos debilitados músculos, não abandona a ética da perseverança.
E dá testemunho da força do espírito que o guia, mesmo acossado pelas doenças que o debilitam. O exemplo do sacrifício fala mais que mil palavras. O sofrimento não o derruba.
Persevera com a paciência daqueles que confiam e, por isso, não recuam. Aconselham-no a desistir das viagens e do trabalho a que era obrigado. Resiste. Ainda não soara a hora da missão impossível.
Com a figura distorcida e flácida, com os membros enrolados sobre si próprios, com o olhar encovando-se de dor, com a boca a afilar-se num sibilar de palavras, o seu Evangelho toma uma nova forma de expressão. E deixa toda a gente abismada com essa coragem nunca vista. Gente com chagas de injustiça ou gente com coroas de poder, olham-no com arrepios de espanto. Perseverar, mesmo sob o peso de tanta dor, não é uma visão comum. E a sua dor surge agora como uma exaltação do humano, não como uma perda da dignidade.
Quando considerar-se exausto e desistir da missão?! Em breve, terá de parar, dizem muitos. Não pode ser, sofre demais, dizem quase todos. Ele ouve-os no seu coração despedaçado de fraqueza. O coração fraco a resistir e, ao mesmo tempo, a apontar-lhe a defesa da vida até ao último sopro. João Paulo II segue o coração e não escuta os conselhos humanos.
Quando deve suspender as suas funções? Não sabe, não sabe, mas há uma réstia de força que o impulsiona ainda. Quer enviar uma «Palavra» ao mundo. É Domingo de Páscoa. Esteve, após a cirurgia, a treinar a voz, que doía, doía demais. Vai ser capaz! Tenta, tem de tentar. Todos aqueles que estão na Praça de S. Pedro, esperam ouvi-lo. Ouvi-lo mais uma vez. Carol Wojtyla não quer desapontá-los. Os jovens, especialmente, esperam a palavra sempre destemida, mesmo que seja quase inaudível. À janela, frente à Praça de S. Pedro apinhada de fiéis, como era costume em todos os domingos de Páscoa, João Paulo II pede o microfone. Tenta sussurrar uma prece ou uma súplica ou um louvor, quem poderá sabê-lo? Depois, tenta de novo. Mas a voz perde-se dentro de si. Sufoca com o ar livre.
Pela primeira vez na sua vida, está frente ao impossível. Tudo está consumado. Mas ainda sente a força de uma vontade inabalável. «Pai, porque me abandonaste?», terá perguntado, como Jesus. De súbito, João Paulo II sabe que já «muito lhe tinha sido exigido», precisamente porque «Deus muito lhe dera». Cai a cortina do quarto como um pano no teatro, esse teatro que, na juventude, tanto o entusiasmava. A peça em que ele representara o papel principal e de que era também, em parte, autor, findara.
Poucos dias depois, ante o seu cadáver, a multidão, com o rosto coberto de lágrimas, diria: «Santo, súbito!».
*Publicações: O Primeiro de Janeiro, 18/4/2005; A Avezinha, 12/5/2005; Internet, www.triploV.com 27/9/2005; Almanaque de Nossa Senhora de Fátima, 2006; Cadernos Vianenses, nº37, 2006 (Ed. Câmara Municipal de Viana do Castelo).
ALGUNS DOCUMENTOS ¹
– DISCURSOS DO PAPA JOÃO PAULO II EM PORTUGAL
Homília em Fátima de João Paulo II
(13 de Maio de 1982)
E a partir daquele momento, o discípulo recebeu-A em sua casa» (Jo.19,27)
(…) «Recebeu-A em sua casa» – esta frase significa, literalmente, na sua habitação.
Uma manifestação particular da maternidade de Maria em relação aos homens são os lugares em que Ela se encontra com eles; as casas onde Ela habita; casas onde se sente uma presença toda particular da Mãe.
Estes lugares e estas casas são numerosíssimos. E são de uma grande variedade: desde os oratórios nas habitações e dos nichos aos longos das estradas, onde sobressai luminosa a imagem da Santa Mãe de Deus, até às capelas e às igrejas construídas em Sua honra. Há, porém, alguns lugares, nos quais os homens sentem particularmente viva a presença da Mãe. Não raro, estes locais irradiam amplamente a sua luz e atraem a si a gente de longe. O seu círculo de irradiação pode estender-se ao âmbito de uma diocese, a uma nação inteira, por vezes a vários países e até aos diversos continentes. Estes lugares são os santuários marianos.
Em todos estes lugares realiza-se de maneira admirável aquele testamento singular do Senhor Crucificado: aí, o homem sente-se entregue e confiado a Maria e vem para estar com Ela, como se está com a própria Mãe. Abre-Lhe o seu coração e fala-Lhe de tudo: «recebe-A em sua casa», dentro de todos os seus problemas, por vezes difíceis. Problemas próprios e de outrem. Problemas das famílias, das sociedades, das nações, da humanidade inteira.
(…) A partir daquele momento em que Jesus, ao morrer na Cruz, disse a João – «Eis a tua Mãe», e a partir do momento em que o discípulo «A recebeu em sua casa», o mistério da maternidade espiritual de Maria teve a sua realização na história com uma amplitude sem limites. (…)
Mensagem de João Paulo II na Universidade de Coimbra
(15 de Maio de 1982)
(…) A cultura é do homem. No passado, quando se pretendia definir o homem, quase sempre se fazia referência à razão ou à liberdade ou à linguagem. Os recentes progressos da antropologia cultural e filosófica mostram que se pode obter uma definição não menos precisa da realidade humana referindo-se à cultura. Esta caracteriza o homem e distingue-o dos outros seres não menos claramente que a razão, a liberdade e a linguagem.
(…) A cultura vem do homem. Este recebe gratuitamente da natureza um conjunto de capacidades, de talentos, como lhes chama o Evangelho, e, com a sua inteligência, a sua vontade e o seu trabalho, compete-lhe desenvolvê-los e fazê-los frutificar. O cultivo dos próprios talentos, tanto da parte do indivíduo como da parte do grupo social, com o fim de se aperfeiçoar a si próprio e de dominar a natureza, constrói a cultura. Assim, ao cultivar a terra, o homem actua [põe em acção] o plano criador de Deus; ao cultivar as ciências e as artes, trabalha para a elevação da família humana e para chegar à contemplação de Deus.
A cultura é para o homem. Este não é somente o artífice da cultura, mas também o seu principal destinatário. Nas duas acepções fundamentais de formação do indivíduo e, de forma espiritual, da sociedade, a cultura tem em vista a realização da pessoa com todas as suas dimensões, com todas as suas capacidades. O objectivo primário da cultura é o de desenvolver o homem enquanto homem, o homem enquanto pessoa, ou seja, cada homem enquanto exemplar único e irrepetível da família humana.
(…) «Abri ao poder salvador de Cristo… os vastos campos da cultura, da civilização, do progresso. Não tenhais medo. Permiti a Cristo falar ao homem» ², também em Portugal, para o qual, por vós, desejo as melhores felicidades.
Saudação do Arcebispo Primaz de Braga a João Paulo II
(no Santuário do Sameiro em 15 de Maio de 1982):
(…) Sentimo-nos vivamente emocionados por se haver dignado Vossa Santidade vir até nós.
Da multissecular Arquidiocese de Braga, com sede na vetusta capital da Província romana da Galaecia, saíram vários Bispos para as honras dos altares: S. Martinho de Dume, no século VI; S. Frutuoso, no seguinte; S. Geraldo, na Reconquista cristã. (…)
A partir do século XI, ultrapassadas as vicissitudes causadas pela ocupação, ou incursões dos muçulmanos, Braga retoma toda a sua vitalidade de Igreja metropolitana e primacial. Da sua enorme área foram-se constituindo, por desmembramento, as Dioceses de Miranda e Bragança, Vila Real e Viana do Castelo.
No seu conjunto, a Arquidiocese bracarense, com quase um milhão de habitantes, é entre as Dioceses portuguesas a que se conserva mais fiel às tradições e com um índice de prática religiosa mais elevado. (…)
¹ Discursos do Papa João Paulo II em Portugal, Edição da Conferência Episcopal Portuguesa, Lisboa, 1982, pp. 67, 68, 69, 163, 168, 169, 228, 229.
² Passagem da alocução feita por João Paulo II imediatamente após a eleição para o Sumo Pontificado em 17 de Outubro de 1978.
2º – A ARTE DE ORAR *
O desafio é orar. Orar, é manifestar o ser.
Transmitir a palavra que nos habita e que nos extravasa.
A palavra que está em nós, escondida, secreta. Essa palavra que se torna mais viva quando a lançamos num mundo mais largo. Mundo que é o do encontro com os que estão ao nosso lado.
E a palavra, ainda virgem dentro de nós, torna-se, na sua expressão verbal, como uma semente fecunda que começa a germinar no húmus da terra.
A oração solitária é uma contemplação que aproxima cada um de nós da sua consciência. A oração comunitária aproxima mesmo aqueles que não se conhecem. É com o seu sal reconfortante que o amor nela contido se abre para o nosso íntimo, para aqueles que estão ao nosso lado ou para aqueles que vivem na nossa distância.
E quanto mais simples forem as palavras ditas maior a sua sonoridade. Distanciam-se, na nossa intimidade, até ao infinito que começa a viver em nós com maior intensidade. Há, então, uma união feita pela força da palavra que soa como se fosse um sol mais brilhante.
O «Rosário de Nossa Senhora» é a oração de Maria. A oração predilecta de Maria ressoa hoje com a força da Sua imagem, aparecida, em 1917, aos pequenos pastores de Fátima.
Como acentua a Carta Apostólica do Papa João Paulo II «Rosário da Virgem Maria», a simplicidade desta oração não obsta a que seja também uma oração com profundidade. É que ao dizê-la, cada um começa a estar no caminho da transcendência de Jesus. Esta oração começa precisamente com uma saudação à Virgem: «Avé Maria, Cheia de Graça». São as palavras primeiras da Anunciação do Anjo, mensageiro do divino Espírito Santo. Este enunciado assume de um modo muito simples o mistério da encarnação de Jesus e com ele começamos o «caminho da (sua) contemplação».
Todo o mistério do encontro entre o divino e o humano está nestas palavras: «o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres, bendito o fruto do vosso ventre». O divino está com Maria, tocou-a com a Sua graça. E a «Cheia de Graça» é aquela que na sua face tem já a face de Jesus, no seu olhar tem já o olhar de Jesus, na sua paz tem já a paz de Jesus. O Espírito Santo está aqui em Maria, presente, vivo, fazendo-se transparecer em Jesus. O fruto de Maria é aqui uma memória acesa e que incendeia a alma.
A grande bênção que o Espírito Santo oferece ao Homem, por intermédio de Maria, é Jesus. No ventre de Sua Mãe, envolvido pelas suas águas, Ele é a água que mata a sede, e quem do seu caudal beber, não mais terá sede. Maria possui em si esse caudal porque é a sua guarda, o seu invólucro, a sua concha, ainda antes do Seu nascimento.
O Filho de Deus está no seu ventre abençoado, Ele que é a imagem do Pai («Quem me vê, vê o Pai», dirá Jesus) é trazido ao mundo humano pelo corpo de Maria. Como um rio de Amor sem fim, cresce em Sua Mãe como a oferenda salvífica da humanidade.
A memória da intervenção da transcendência a fazer a sua chegada para todo o mal redimir. E todas as palavras do «Rosário» ressoam no oração de cada um como uma flauta a entoar cânticos maternais. O ventre de Maria é a primeira «casa» da divindade de Jesus. É o primeiro sustentáculo do mistério da encarnação. E através do espírito de Maria há a primeira ligação do divino à humanidade.
O «Rosário de Nossa Senhora» é uma apresentação dos «mistérios de Seu Filho a fim de serem contemplados» (Carta Apostólica), como se fossem as flores mais simples da natureza. Esta é a oração predilecta da Senhora mais brilhante que o Sol, vista pelos pequenos pastores de Fátima, porque lhes recomendou que a dissessem todos os dias. Seria a oração a elevar-se na luz da manhã a despontar, seria a oração do entardecer, seria a oração dos puros de coração, desses que «veriam a Deus», como disse Jesus no Sermão da Montanha.
O «Rosário da Virgem Maria» é aquela oração de quem João Paulo II diz: «Quanta paz se asseguraria nas relações familiares, se fosse retomada a recitação do Santo Rosário em família!» (Carta Apostólica). E a paz começa precisamente nas relações familiares. Se ela não começar aí, onde começará?
* Publicações: Internet, www.triploV.com (18 de Abril de 2003); Jornal de S. Braz (Évora), nº 190 (Junho de 2003); A Avezinha (Paderne) 25/9/2003.
3º – A MULHER E A CONSAGRAÇÃO DE NOSSA SENHORA*
No silêncio da interrogação, do sofrimento e da busca encontrou João Paulo II a resposta à simultaneidade do atentado de que foi vítima e a comemoração em Fátima da aparição de Nossa Senhora aos pequenos pastores. Sinal dos tempos, da eternidade ou da fé, foi o bastante para a figura de Maria, Mãe do Salvador, conquistar um lugar primordial, que parecia perdido, no mundo esquecido ou alienado dos valores que o explicam e justificam.
Contudo, o Papa que veio do fechado «arquipélago de Goulag» não achou suficiente a sua presença, logo no ano imediato, no Santuário daquele local recôndito de Portugal. Para dimensionar a estranha coincidência dos dois acontecimentos, reforçados pela sua sobrevivência aos tão graves ferimentos que suportou, decidiu que, neste ano que consagrou à Redenção, a imagem da Virgem de Fátima se deslocasse à Basílica de S. Pedro, em Roma, para aí a enaltecer e consagrar ao Mundo, especialmente ao bloco dos países socialistas, aos quais a Senhora, brilhante como o sol, se referiu com amargura, mas com esperança.
Nossa Senhora deixou, pois, no dia 25 de Março último, de ser motivo quase exclusivo de veneração dos portugueses, a quem se dirigiu nas pessoas dos irmãos pastores. Nossa Senhora aparecida em Fátima tornou-se motivo da veneração do Mundo inteiro. Através das cerimónias oficiais que o Papa João Paulo II preparou, tornou-se a Padroeira não de um Povo, mas de todos os Povos.
Os portugueses, escolhidos pela Mãe de Deus para conversar com os Homens, foram os grandes intermediários do século XX entre a esfera do divino e a esfera do humano, tal como os judeus o foram há dois mil anos para que Cristo se revelasse à Humanidade como Deus que assume carácter humano para a libertar da escravatura do Mal.
Na época em que a mulher luta pela sua dignificação, muitas vezes com meios e processos contrários aos seus reais objectivos, a Igreja de Roma chama a atenção para os verdadeiros valores que dimensionam a mulher. E fá-lo através da elevação a Maria ao altar da «Cidade Eterna». Simbolizando Ela as virtudes máximas da mulher, ao venerá-la, o Papa João Paulo II dignifica a mulher: quer a de espírito aberto à transformação dos seus comportamentos egoístas, quer a que tem prosseguido no sacrifício, na renúncia ou na generosidade, o espírito que Maria possuía em plenitude.
Foi neste sentido a mensagem que, na ocasião, proferiu, ao chamar a atenção de todos os Homens de boa vontade para a necessidade de ver em Nossa Senhora a conselheira ideal dos momentos difíceis, condição para que a esperança não morra definitivamente no coração dos que sofrem pecando ou vendo pecar os seus irmãos.
O retorno da humanidade para uma vida onde os valores espirituais estejam presentes foi, sem dúvida, o objectivo maior das palavras de Karol Wojtyla.
Por isso, fez uma meditação sobre as consequências degradantes para o ser humano, e designadamente para a mulher, da legalização do acto abortivo; reprovou, igualmente, todas as formas de corrupção dos costumes, próprias de sociedades em que os valores morais foram substituídos por valores puramente materiais. Neste contexto, a juventude alienada, degradada e sem esperança não pode deixar de se focar pelas implicações que o comportamento da mulher-mãe pode ter na sua descrença em qualquer espécie de valores.
O papel da mulher na educação da criança e do jovem através da proliferação de estabelecimentos onde desde os primeiros anos de vida o novo ser é colocado, não tem poucas responsabilidades no modo de encarar a vida do futuro jovem. A mulher que trabalha de manhã à noite não pode deixar de se demitir da sua função maternal e as consequências são hoje bem visíveis. A criança demasiado cedo desinserida da família, como pode acreditar nas suas virtualidades? Sem protecção na família, a reacção manifesta-se na escola no desinteresse pelo estudo, no gosto pelos divertimentos aleatórios ou pela solução-droga que lhe oferecem, por vezes, à saída ou pouco antes de chegar à escola.
Ao referirmo-nos à importância da mulher no mundo de hoje, essa importância não se pode limitar à sua realização profissional, mas também à sua importância, quando mãe, na educação dos filhos que têm de se sentir amados para serem um dia capazes de amar, sem precisarem de soluções subterfúgios como a sexualidade fácil ou a droga aniquilante. Relacionado com a materialização já presente na educação dos nossos dias, vem agora juntar-se, aprovada pela maioria (será sempre legítima?) da Assembleia da República, uma lei claramente fomentadora de um agravamento da tendência materialista já disseminada entre tantos jovens: a lei da educação sexual.
Numa escola anárquica em que os poderes pedagógicos são inoperantes pelo desrespeito e pelo descrédito que atingiram, numa escola em que muitos professores já aproveitam as suas aulas para divulgar questões que os alunos «devem» saber, como é o caso das aulas de Religião e Moral quase totalmente despovoadas pelo desprestígio em que caíram (os encarregados de educação preferem que os filhos não tenham estas aulas), é nesta escola que se vai introduzir conhecimentos de genética, sexualidade, etc., sem a garantia de professores suficientemente cautelosos no modo de expor e comentar essas matérias e a alunos sem maturidade e sem preparação (pela mentalidade de que estão imbuídos e pelo seu nível etário) para as receber adequadamente. Uma função que devia primordialmente pertencer aos pais passa agora a ser do foro da educação do Estado. O colectivo está, também entre nós, a sobrepor-se ao individual e o Papa João Paulo II com a sua atitude, ainda de esperança, está bem consciente disso.
* Publicações: O Dia, 13/4/1984.
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SANGUE -RELÍQUIA*
UMA MEDITAÇÃO POSSÍVEL SOBRE A SANTIDADE DO BEATO JOÃO PAULO II
«(…) Ele foi o Papa que o mundo pôde ver ensanguentado por amor do mundo, num momento crucial, quase no início do seu longuíssimo pontificado, a 13 de Maio de 1981, quando, em plena Praça de São Pedro, sofreu o atentado que veio a definir o sentido do seu percurso, vinculando-o a Fátima e à sua Mensagem, nomeadamente à terceira parte do Segredo que, por sua iniciativa, foi divulgado no ano 2000, oferecendo a imagem de um bispo de branco, caindo sob o fogo de armas.
Um Papa em sangue. João Paulo II ofereceu, aos olhos dos homens deste tempo, algo já esquecido nas lonjuras da Igreja nascente: o sangue de um sucessor de Pedro. Escolher o seu sangue como relíquia é trazer para o século XXI a lembrança do sinal de contradição que o acontecimento do atentado constituiu nos fins do século XX. A sua vida como Papa, sabemo-lo, obedeceu a esse desígnio: introduzir a Igreja no terceiro milénio.
O seu sangue, de ora em diante exposto à compreensão ou à incompreensão dos homens, crentes ou não, reveste-se de grande significado, convoca, para o milénio que começa, a trama global em que viveu o seu múnus pontifício. Discípulo de Cristo e seu Vigário, da chamada a concretizar nestes tempos a missão do primeiro dos apóstolos, nada de mais significativo poderia ser oferecido aos tempos, como sinal e interpelação, que o seu próprio sangue. Este permanecerá perenemente como lugar de enraizamento de um milénio que se escreve diferente desde o princípio, porque João Paulo II, Papa entre dois tempos, não temeu derramá-lo. (…)
A sua santidade é próxima, real, nada tem de etéreo ou angelismo. É de carne e de osso, de olhares e sorrisos, palavras serenas e palavras duras, palavras de compreensão e palavras de censura, palavras de compaixão e palavras de beleza... e gestos, muito gestos, muitos gestos e actos de sentido profético inesgotável. Místico, não fugiu ao mundo nem se voltou sobre si em misticismo desencarnado. Actuante, não caiu em activismo. Viajante, imobilizava-se em longos silêncios orantes.
Atlético e saudável, soube envelhecer sem se esconder nem permitir que o escondessem, como hoje tanto acontece. Confiado aos cuidados médicos e neles confiante, recusou o encarniçamento terapêutico e acolheu a morte na sua hora. A sua santidade foi uma santidade corpórea, tangível, situada no tempo e no espaço, tecida das múltiplas relações que estabeleceu, mas profundamente enraizada na experiência quotidiana da Páscoa de Cristo, acontecimento culminante da divina Misericórdia. O sangue diz a santidade totalmente humana que corria nas artérias e veias do corpo que foi e que nós vimos e ouvimos, tocámos e sentimos.
Só o sangue poderia expressar esta totalidade, porque só o sangue não é dizível como uma parte do corpo que a pessoa é. O sangue chega a todo o corpo. Chegou a todo o corpo que João Paulo II foi, naturalmente bombeado por um coração incansável, levando e trazendo, cumprindo a troca que possibilita a vida; só o sangue, elemento corpóreo culturalmente símbolo de martírio e doação, poderia expressar a radicalidade que em cada um dos seus compromissos foi visível. Nada como o sangue seria relíquia adequada do Beato João Paulo II. Sangue-relíquia.
É belo, também, lembrar que o sangue deste Papa, sendo sangue derramado, é sangue recebido. Sangue recebido de anónimos homens e mulheres que, na dádiva do seu próprio sangue, dão vida, como deram vida a João Paulo II, nas muitas circunstâncias da sua existência em que precisou do sangue de outros para continuar vivo, nomeadamente na sequência do atentado. Quem seriam? Quem terá, sem o saber, dado do seu sangue ao Papa?
Toda a tradição bíblica do sangue como princípio de vida e, em Jesus, princípio de vida nova, oferece um horizonte de compreensão para visitarmos a relíquia do sangue do Papa de todas as gentes, que todo o mundo visitou. O sangue do Papa das gentes resulta da mistura dos sangues de pessoas várias, em momentos críticos vários da sua existência. Sangue derramado que é sangue recebido, que é sangue dado.
A relíquia surge, assim, liberta de toda e qualquer enviesamento de interpretação pietista ou marcada pela superstição, como uma narrativa de amor, expressão do elevado patamar de comunhão, tão global quanto interpessoal, que este Pastor universal atingiu. (…)»
José Nuno Ferreira da Silva**
* Internet, Paróquia de S. Cosme, Gondomar (excertos).
** O Pe. José Nuno nasceu em 1964 em Gondomar, é Licenciado em Teologia e Doutorado em Bioética pela Universidade Católica. Actualmente, é Capelão do Hospital de São João no Porto e Coordenador das